Entre flores cuidadosamente colocadas sobre os túmulos, orações silenciosas e lembranças que resistem à passagem do tempo, o Dia de Finados foi marcado por homenagens no Cemitério São Francisco de Assis, em Taguatinga Norte, nesta segunda-feira (2). Para muitas famílias, a data representa mais do que uma visita ao local onde estão sepultados parentes e amigos. É uma oportunidade de recordar histórias, preservar tradições e encontrar, na fé e na memória, uma forma de manter viva a presença de quem partiu.

A movimentação fez parte de um fluxo de mais de 600 mil pessoas que visitaram os seis cemitérios públicos do Distrito Federal durante o feriado, segundo balanço divulgado pela Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus-DF). Para acolher os visitantes, a pasta instalou tendas de atendimento nas unidades e contabilizou 1.203 atendimentos, sendo 210 em Taguatinga. Os serviços incluíram orientações sobre procedimentos funerários, registros de ouvidoria e apoio psicossocial.

Em meio às homenagens, a assistente administrativa Shisley Ramalho, de 37 anos, esteve no cemitério acompanhada da família para lembrar o irmão, falecido há dois anos e quatro meses, e um sobrinho que nasceu sem vida recentemente. Ela recorda a convivência com o irmão, único homem entre os seis filhos da família. Com apenas dois anos de diferença de idade, os dois compartilharam momentos da infância que permanecem vivos na memória.

“A gente tem muita memória dele em questão de ser o único homem dos nossos irmãos e da infância também. A gente tinha dois anos de diferença, então sempre lembro”, conta. Para a família, cuidar do túmulo é uma maneira de demonstrar carinho e preservar os vínculos afetivos. “A gente costuma arrumar o túmulo, deixar bem bonito, colocar flores e, principalmente, rezar pela alma dele, para que esteja num bom lugar”, relata.

As visitas, segundo Shisley, não se limitam ao Dia de Finados. Ao longo do ano, os familiares se revezam para estar perto daqueles que perderam. “Quando vem uma, vem outra. Então, sempre tem alguém aqui”, afirma.

A tradição também acompanha o empresário Edson Ornelas, de 39 anos, morador de Ceilândia. Desde criança, ele frequentava o cemitério com os pais e a irmã para cuidar dos túmulos dos avós e de outros familiares. Com o passar dos anos, o costume ganhou um significado ainda mais profundo. O pai morreu há quatro anos, e a mãe completará dois anos de falecimento.

“Desde criança, a gente sempre foi, eu e minha irmã, ajudando a cuidar dos túmulos. Era uma forma de expressão do carinho que a gente tinha pelos entes queridos”, relembra.

Hoje, Edson mantém o hábito ao lado da irmã e da sobrinha. A família leva flores, organiza os túmulos e dedica parte do dia às orações. “É uma forma de ainda estar próximo desses entes queridos que partiram”, diz. Para ele, repetir os gestos que aprendeu com os pais é também uma maneira de transmitir às próximas gerações o respeito pela história familiar.

Nem todos os visitantes foram ao cemitério para homenagear parentes sepultados no local. O servidor público Leandro Ribeiro, de 49 anos, esteve na unidade acompanhado da esposa, das duas filhas e do genro. Moradores de Taguatinga, eles escolheram o cemitério pela proximidade de casa e pela tradição religiosa.

Embora não tenham familiares enterrados ali, a visita faz parte de uma prática de devoção católica. A família participou de uma missa e percorreu o espaço em oração pelas pessoas falecidas. “Visitando o cemitério, a gente está fazendo esse ato de caridade, de misericórdia com os demais irmãos que já partiram”, explica Leandro.

Para o servidor público, caminhar entre os túmulos também desperta reflexões sobre a passagem do tempo. Ao observar nomes, datas e histórias registradas nas lápides, ele encontra motivos para pensar sobre a própria vida e os vínculos construídos ao longo dela. “Você vai refletindo sobre a vida ao caminhar no cemitério no dia 2 de novembro. É um ato de oração, um ato de profunda comunhão com os irmãos que já partiram”, afirma.

Além das visitas aos jazigos e das celebrações religiosas, o Dia de Finados contou com uma estrutura de acolhimento organizada pela Sejus-DF. Responsável por supervisionar e fiscalizar a administração dos cemitérios e dos serviços funerários no Distrito Federal, a secretaria disponibilizou equipes para orientar os visitantes sobre direitos, custos, procedimentos e canais de reclamação.

No Cemitério São Francisco de Assis, em Taguatinga, foram realizados 210 atendimentos. O número foi o segundo maior entre as seis unidades, atrás apenas da Asa Sul, que contabilizou 387.

Em todo o DF, os 1.203 atendimentos foram distribuídos entre 1.129 orientações gerais, 61 registros de ouvidoria e 13 atendimentos psicossociais. Além de Taguatinga e Asa Sul, o Gama registrou 195 atendimentos; Sobradinho, 140; Brazlândia, 139; e Planaltina, 132.

“O nosso papel é garantir a boa organização dos cemitérios, mas também ter um olhar acolhedor para as pessoas. É um momento de saudade e fragilidade para muitas famílias, e queremos oferecer escuta, orientação e apoio a quem precisa”, destacou o secretário interino de Justiça e Cidadania, Jaime Santana.

Estrutura e trânsito

Para receber os visitantes durante o feriado, a concessionária Campo da Esperança Serviços Ltda., responsável pela administração dos seis cemitérios do Distrito Federal, organizou um esquema especial de funcionamento. As unidades abriram às 7h, uma hora antes do horário habitual, com entrada permitida até as 18h e encerramento das atividades às 19h.

No Cemitério São Francisco de Assis, a programação religiosa incluiu missas ao longo do dia. A estrutura também contou com transporte interno gratuito, disponibilizado pela concessionária nos quatro maiores cemitérios do DF. Ao todo, 11 vans foram distribuídas entre as unidades da Asa Sul, Taguatinga, Gama e Sobradinho, com previsão de viagens em intervalos médios de 15 minutos.

Para facilitar a localização dos jazigos, a unidade de Taguatinga disponibilizou seis computadores e um totem de consulta. A concessionária também reforçou o atendimento ao público e as equipes de apoio para receber os visitantes.

O Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) realizou alterações na circulação de veículos nas proximidades dos cemitérios. Em Taguatinga Norte, a operação ocorreu na Avenida Hélio Prates, nas imediações do Cemitério São Francisco de Assis, com o objetivo de organizar o fluxo de visitantes. O acesso de veículos ao interior da unidade ficou restrito a pessoas com autorização de vaga especial para idosos, pessoas com deficiência ou pessoas autistas.


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