Em entrevista ao Jornal de Brasília, o deputado federal Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL), líder da bancada na Câmara dos Deputados e escalado pela cúpula nacional para liderar uma comissão especial de gestão compartilhada no DF, desautorizou qualquer movimentação que crave o apoio imediato do partido à atual governadora Celina Leão (PP).
Segundo o dirigente nacional, os recentes encontros de deputados distritais emedebistas com a chefe do Executivo local não passam de diálogos institucionais da base e não refletem a chancelaria oficial do partido. Mais do que isso, Bulhões revelou que a Executiva avalia uma estratégia agressiva para encorpar a bancada federal em Brasília, cogitando convocar deputados distritais que buscam a reeleição na Câmara Legislativa (CLDF) para reforçar a nominata e concorrerem a uma vaga de deputado federal.
“O posicionamento do partido, primeiramente, é harmonizar todos os lados e a condução até as convenções para definir as composições possíveis, e os pensamentos diferentes para definir o futuro do Distrito Federal”, afirmou Bulhões.
O parlamentar foi categórico ao separar a rotina institucional da bancada distrital das decisões de caráter estritamente eleitoral. “O posicionamento do partido é de diálogo aberto, então, vimos sua matéria dizendo que a governadora recebeu os deputados distritais, mas não retrata o posicionamento do partido. Nossa preocupação é fortalecer o partido aqui no Distrito Federal com mais federais, o que é fundamental para o crescimento da bancada. Queremos aumentar nossa bancada para algo em torno de 50 deputados.”
Foco na ampliação da bancada federal
A meta de engordar as fileiras da legenda no Congresso Nacional ditará o tom das negociações na capital da República. Bulhões indicou que o MDB trabalha com foco no plano de expansão nacional.
“Nós temos algumas candidaturas que hoje estão postas para deputados distritais, para que saiam a deputados federais e vamos trabalhar para termos mais deputados federais. Eu compreendo aquela reunião, por estarem em diálogo para manter a base da [governadora] na Câmara Legislativa, do qual os deputados fazem parte, mas do ponto de alinhamento aquilo não é em relação ao partido. A decisão será tomada no momento correto e em diálogo com as várias frentes que temos aqui no DF.”
Questionado sobre a existência de canais formais abertos com o Progressistas (PP) de Celina Leão, Isnaldo Bulhões revelou um cenário de completo distanciamento institucional nos últimos dias, refutando a tese de que haveria uma coalizão já costurada.
“Nos últimos dias não houve nenhuma conversa. Desde que a Executiva nacional tomou esse posicionamento, não houve nenhuma conversa partido a partido com o Progressistas. Se eu estou em um partido que precisa conversar com o governo é uma coisa. Agora, entre o MDB do Distrito Federal, ao qual eu represento, e o Progressistas do DF não houve nenhuma conversa.”
Wellington Luiz e crise interna
A entrada de Isnaldo Bulhões e da Executiva Nacional na engrenagem política brasiliense ocorreu após uma severa crise interna envolvendo o comando do atual presidente regional, o deputado distrital Wellington Luiz. A intervenção nacional desenhou uma linha clara entre a gerência burocrática e o tabuleiro de xadrez eleitoral de 2026.
Bulhões contemporizou a relação com o mandatário local, assegurando que o respeito institucional se mantém, mas reiterou que as decisões de coligação saíram das mãos exclusivas do diretório local.
“O presidente Wellington tem total autonomia administrativa, legitimada em convenção. Agora, as decisões eleitorais estão a cargo da comissão que eu represento. Ele manifestou a intenção de apoiar a governadora, mas falou claramente que, visto o tamanho do partido, ele vai tomar uma decisão a favor do partido. Qual será esse caminho? Candidatura própria? No momento certo, o partido avaliará e apresentará as suas opiniões que são fundamentais, inclusive sobre aliança com outros partidos. Na minha leitura, a realidade do presidente Wellington é essa aí. A relação é sempre muito amistosa, dentro do quadrante político e ele reconhece isso. Houve um movimento brusco que precisamos solucionar e somos um mesmo partido, seja no Distrito Federal seja no Brasil.”
Ibaneis Rocha e a surpresa com o PP
Outro ponto de inflexão fundamental na estratégia emedebista é o futuro do ex-governador Ibaneis Rocha. A postulação de Ibaneis ao Senado Federal é considerada um movimento muito forte, mas Bulhões demonstrou forte estranheza com os sinais emitidos pelo Palácio do Buriti, indicando que o apoio a Ibaneis deveria ser uma reação natural e não um objeto de barganha.
“A pré-candidatura do ex-governador Ibaneis Rocha ao Senado é um movimento muito forte para o partido, mas ela não é uma condicionante para se fazer uma aliança com o Progressistas ou não. Não estamos condicionando nada, o partido não conversou com a governadora Celina Leão. Até o momento, eu não estava envolvido, não estava envolvido com esse processo aqui, mas fiquei muito surpreso com a governadora não tê-lo como candidato natural ao Senado. Não somente eu, mas todos.”
O líder nacional lembrou o gesto de desprendimento de Ibaneis ao deixar o cargo e pontuou que o fortalecimento do MDB é a premissa para qualquer composição. Caso as pretensões da legenda não encontrem reciprocidade, o caminho do isolamento com chapa pura majoritária está oficialmente na mesa.
“A partir do momento que ele renunciou, eu imaginava que daquele momento, um dos pré-candidatos ao Senado na chapa dela, seria o pré-candidato Ibaneis, mas não houve um condicionamento. Não chegamos: ‘Celina, você tem que aceitar isso ou aquilo, senão acontece isso’. Vamos discutir todos os projetos, com tanto que contemple o fortalecimento do MDB, senão teremos candidatura própria ao governo. A candidatura do ex-governador é uma das questões muito caras ao partido.”
Rafael Prudente desponta
Caso o MDB opte por marchar de forma independente na disputa ao Governo do Distrito Federal (GDF), o nome do deputado federal Rafael Prudente desponta como a principal alternativa técnica e política da legenda. Isnaldo Bulhões fez questão de tecer elogios ao colega de bancada federal, posicionando-o no primeiro escalão de competitividade regional.
“Um nome será decidido nas convenções, a resposta é essa. Segundo: indiscutivelmente o deputado Rafael Prudente é um grande nome do partido e tem todas as condições de governar o Distrito Federal, ele figura como um dos nomes mais fortes da política aqui do DF. Apesar de ser suspeito de falar, com todo respeito aos deputados e deputadas, ele é um dos que tem a melhor atuação entre todos. Relatou algumas das matérias mais importantes para a sociedade. Ele é um nome importante para, caso ele queira, pleitear uma candidatura ao governo.”
Bastidores
Para além das declarações, o cenário político em Brasília explica-se pela recente engenharia organizacional do partido. Ao contrário do que se desenhava inicialmente nos bastidores locais, o deputado Isnaldo Bulhões Jr. não assumiu o cargo de coordenador fixo ou isolado do MDB-DF. Na verdade, Bulhões é deputado federal eleito pelo MDB de Alagoas e goza de imensa influência na cúpula nacional da legenda, sendo frequentemente escalado como o principal mediador de impasses e crises nos diretórios estaduais pelo país.
A criação da Comissão Especial, instituída em junho de 2026 pela Executiva Nacional do MDB, foi a resposta direta a uma crise interna que chacoalhou o diretório do Distrito Federal sob o comando do deputado Wellington Luiz.
Para evitar uma ruptura e garantir que os rumos partidários, o lançamento de candidaturas e a costura de alianças para o pleito de 2026 fossem geridos de forma compartilhada, a direção nacional montou um colegiado de peso para atuar junto à presidência regional. Além de Isnaldo Bulhões Jr., o grupo estratégico é composto pelos deputados federais Rafael Prudente e Iza Arruda, pelo próprio presidente local Wellington Luiz, e pelo dirigente Marcelo Priante.
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