Enquanto os nomes de ministros e senadores ocupam as manchetes principais do escândalo do INSS, o relatório final da CPMI, apresentado nesta sexta-feira (27), dissecou uma anatomia muito mais profunda e técnica. O documento de mais de 4.300 páginas revelou que o sucesso do esquema — que movimentou quase R$ 40 bilhões — não dependeu apenas de ordens políticas, mas de um “segundo escalão” de operadores e familiares que construíram uma blindagem técnica e jurídica quase impenetrável.
Um dos personagens centrais da trama, embora menos conhecido do grande público, é Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho. Como Procurador-Geral do INSS, ele é apontado como o arquiteto da “legalização” da fraude.
Segundo o relatório, Virgílio utilizava a estrutura da Procuradoria para desarmar resistências técnicas. Sempre que servidores de carreira barravam o credenciamento de associações suspeitas por falta de documentos, Virgílio emitia pareceres “flexibilizando” as normas. Essa manobra, batizada internamente de “Mata-Leão Jurídico”, forçava a entrada de entidades de fachada no sistema, garantindo proteção legal aos diretores que assinavam os acordos. O rastro do dinheiro revela que empresas ligadas à sua esposa, Thaisa Hoffmann Jonasson, receberam cerca de R$ 11,9 milhões de entidades beneficiadas por esses pareceres.
Laranjas Profissionais
A investigação detalha, ainda, uma teia de parentescos que funcionava como o destino final dos recursos. Thaisa Jonasson é descrita como peça-chave na gestão da Sphere Participações, empresa que recebia repasses milionários de associações sem nunca ter prestado um serviço comprovado.
O esquema de “segundo escalão” estendia-se aos filhos de diretores. Caroline e Eric Fidelis, filhos do ex-diretor André Fidelis, aparecem como sócios em empresas de Tecnologia da Informação (Metropole Empreendimentos e Duatx Tecnologia). O relatório aponta que estas empresas eram contratadas pelas associações para uma suposta “gestão de dados” que, na prática, servia apenas como duto para escoar o dinheiro do INSS para o núcleo familiar dos tomadores de decisão.
Conexão Miami e os Golden Boys
Para que o dinheiro saísse do Brasil, o esquema contou com a sofisticação de Mauro Palombo Concílio. Radicado nos EUA, o contador é identificado como o “arquiteto da blindagem patrimonial” do grupo Golden Boys (Felipe Macedo, Anderson Vasconcelos e Américo Monte Jr.).
O caminho do dinheiro seguia um roteiro digital: O INSS depositava os valores nas associações (como AMBEC e CONAFER), e seguida, as Fintechs Escudoeram acionadase odinheiro ia para empresas como BK Bank, Wave e Nickelpay. Operando no conceito de Banking as a Service (BaaS), elas pulverizavam os valores em milhares de subcontas, superando a velocidade de fiscalização do Banco Central e do COAF.
Através de empresas na Flórida, como a Master Prev USA, Concílio convertia os valores em criptoativos e investimentos imobiliários de luxo nos Estados Unidos, diluindo qualquer rastro do dinheiro subtraído dos aposentados rurais brasileiros.
Omissão da Dataprev
O relatório lança duras críticas à Dataprev. A estatal, que deveria monitorar a segurança dos dados, ignorou sinais óbvios de robôs. O documento comprova que ferramentas de georreferenciamento detectaram milhares de assinaturas colhidas em segundos a partir de um único endereço IP em Brasília.
A investigação sugere que a “omissão de dados” não foi acidental, mas fruto de uma infiltração técnica que impedia que esses relatórios de anomalia chegassem ao Ministério Público.
“Franquia” do Crime
O relator Alfredo Gaspar (União-AL) conclui que o esquema funcionou como uma franquia corporativa. Enquanto o núcleo político (ligado a figuras como o senador Weverton Rocha e o ex-ministro Carlos Lupi) abria as portas normativas via Instruções Normativas (como a IN 121/2021), o núcleo técnico de “personagens invisíveis” garantia a logística e a limpeza do capital.
Com o pedido de indiciamento de 60 pessoas, o relatório agora segue para o Ministério Público Federal, que deverá decidir se transforma a análise da CPMI em uma denúncia criminal que poderá levar à prisão não apenas os políticos, mas os técnicos e familiares que operaram as engrenagens silenciosas deste bilionário mercado da fraude.
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