Acampamento Terra Livre começa nesta segunda em Brasília contra grandes obras nos territórios indígenas

Distrito Federal
Acampamento Terra Livre começa nesta segunda em Brasília contra grandes obras nos territórios indígenas

JORGE ABREU
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O colorido das penas, das pinturas e dos artesanatos indígenas já tomam conta de Brasília. As delegações de povos originários das cinco regiões do país chegam à capital federal para participar do Acampamento Terra Livre, que começa nesta segunda-feira (6) e termina na sexta (10).

O evento anual é coordenado pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e suas organizações de base. Neste ano, o tema é “Nosso futuro não está a venda – a resposta somos nós”, contra grandes obras e empreendimentos que ameaçam os biomas, como construção de estradas e a mineração.

Além disso, o processo eleitoral com candidaturas indígenas e o apoio a políticos aliados devem ocupar a plenária e as reuniões. O movimento sofre derrotas no Congresso Nacional, com a força da bancada ruralista, como, por exemplo, a inclusão da tese do marco temporal na Constituição.

O marco temporal diz que os indígenas só têm direito a reivindicar os territórios que já ocupavam no ano de 1988. Esta tese já havia sido derrubada no STF (Supremo Tribunal Federal), o que levou deputados e senadores se mobilizarem para fazer da proposta uma lei.

“As organizações indígenas enfrentam temas como esse e outros que estão tramitando no Congresso Nacional. A gente continua reafirmando a posição da Suprema Corte sobre a inconstitucionalidade do marco temporal”, disse Kleber Karipuna, coordenador da Apib.

Segundo Karipuna, o acampamento reúne as demandas locais e coletivas dos povos. “Vamos continuar incidindo do ponto de vista jurídico, político e de mobilização para que os direitos indígenas sejam garantidos e efetivados plenamente”, completou.

Conforme a programação, o primeiro dia deve contar com as apresentações das delegações e a escuta de demandas. Já o segundo será marcado pela tradicional marcha nas ruas até Congresso. No terceiro dia, os atos devem se concentrar na plenária com debates sobre os territórios. O quarto também terá caminhada. E o último encerará com a publicação do manifesto.

Em todas as noites, os povos realizarão eventos culturais com objetivo de apresentar a diversidade de cada etnia e gerar interação entre os participantes. Show, desfile de moda e apresentações de dança fazem parte desta programação.

A expectativa da Apib é que o evento reúna cerca de 8.000 indígenas, como nas últimas duas edições. O grupo acampa no Eixo Cultural Ibero-americano, a antiga Funarte, na Esplanda dos Ministérios, próximo das sedes dos três Poderes.

Ewésh Yawalapiti Waurá, presidente da Atix (Associação da Terra Indígena Xingu), leva como principais agendas a proteção territorial. Segundo ele, o território do Xingu sofre invasões diante da pressão do agronegócio, da pesca ilegal e do desmatamento.

“O acampamento Terra Livre não é somente um evento, é um instrumento político estratégico. Para os povos do Xingu, ele cumpre funções centrais, tais como incidência direta sobre o Estado. É o momento em que lideranças falam diretamente com o Congresso, o STF e o governo”, frisou.

Para o presidente da Atix, as mudanças climáticas também devem ser um ponto principal dos debates. Ele afirma que territórios e os biomas sofrem com a crise climáticas, de formas diferentes e essas demandas devem também ser pautadas pelos povos indígenas.

“No Xingu, nós temos impacto direto da seca, do fogo, da alteração de rios, entre outros. Todos relacionados a essas mudanças. Temos que falar sobre financiamento climático justo, como de outras soluções”, ressaltou.

O povo waurá, o qual Ewésh faz parte, pode perder uma prática milenar diante da crise climática. A produção de cerâmicas, passada de geração a geração, pode desaparecer. As secas mais frequentes dos rios resultaram na escassez do cauxi —uma esponja de água doce usada pelos indígenas como matéria-prima na produção das peças.

Indígenas de outros países também devem se somar na luta dos povos brasileiros. No ano passado, organizações dos países da bacia amazônica e da Oceania contribuíram nas pautas, principalmente sobre a Amazônia e o financiamento climático para populações mais vulneráveis.

O evento completa 21 anos de criação, mobilizado pelas organizações de base: Apoinme (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), ArpinSudeste (Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste), ArpinSul (Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste), Coaib (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia), Aty Guasu, Conselho Terena e Comissão Guarani Yvyrupa.

O repórter viajou a convite da Aliança pela Volta Grande do Xingu


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